Israel em Isaías 58 está fazendo “coisa de igreja” com força total: jejum, postura, cara de piedoso. E aí vem a pergunta que dói: “Por que jejuamos e tu não vês?” (Is 58:3). É a lógica da barganha religiosa. Nós fazemos, Deus paga. Só que o Senhor vira o espelho para eles: no dia do jejum, o coração continua duro, o próximo continua esmagado, a injustiça continua normalizada. Aí o culto vira teatro. E quando isso acontece, as duas tábuas da Lei caem juntas: quem despreza o próximo está também desprezando o Deus que diz amar.
Então Deus redefine o “jejum” que Ele quer: soltar as ligaduras da impiedade, desfazer jugos, repartir o pão, acolher o pobre, vestir o nu (Is 58:6-7). Não é “menos religião”. É religião com arrependimento de verdade. É fé que não usa rito como maquiagem. Porque rito sem fé e sem amor não é atalho para Deus. É só barulho religioso. E, pior, cria uma falsa segurança: “estou bem com Deus porque faço as coisas certas”. Foi exatamente essa ilusão que Jesus desmontou quando falou dos fariseus.
Aí entra Mateus 5:13-20 com um peso enorme: “se a vossa justiça não exceder… de modo nenhum entrareis no Reino”. E aqui vem o choque santo: Jesus não está dizendo “façam mais obras do que eles”. Ele está dizendo: “vocês precisam de outra justiça”. Uma justiça diferente em espécie, não em quantidade. A dos fariseus era uma justiça de vitrine, de controle, de autojustificação. A justiça que excede é a justiça de Cristo, que cumpre a Lei e os Profetas por nós. Ele é o único que ama a Deus perfeitamente e ao próximo perfeitamente. Ele é o único cujo jejum, obediência e misericórdia não são teatro, mas verdade.
E como essa justiça chega até nós? Do jeito que Deus sempre faz: de fora para dentro, como dom. No Batismo, você é unido a Cristo, à morte dele e à ressurreição dele (Rm 6:5). Isso quer dizer: a sua entrada no Reino não está apoiada no seu desempenho, mas na obra de Jesus. Aí, sim, as boas obras entram no lugar certo: não como moeda para comprar Deus, mas como fruto do Espírito em quem já foi recebido na graça. Nós não viramos luz para “aparecer”. Nós viramos luz porque Cristo nos acendeu.
Oração ?
Senhor Deus, livra-nos da religião de fachada e da tentativa de te impressionar com obras. Dá-nos arrependimento sincero e fé viva em Cristo, nossa justiça perfeita. Sustenta-nos nos teus meios de graça, para que, unidos a Jesus, amemos o próximo sem buscar crédito e façamos o bem como fruto do teu Espírito. Em nome de Jesus. Amém. ✝️
Desafio do dia ✅
Faça um “jejum” de autopromoção espiritual. Hoje, pratique uma misericórdia concreta e silenciosa: ajude alguém, reparta algo, alivie um fardo. Depois, confesse em oração: “Senhor, minha justiça é Cristo. Minhas obras são resposta, não moeda.” ?