Mateus conta a Transfiguração como quem vai abrindo uma daquelas bonecas russas. Você acha que já viu tudo… e então vem mais uma camada. E outra. E outra. E o efeito é esse: não é só Jesus que “muda de aparência”. É como se, por alguns minutos, Deus puxasse a cortina e mostrasse o que sempre esteve ali, só que escondido da nossa vista apressada e cansada.
Jesus escolhe três discípulos e sobe um monte alto. Não é passeio. É aula. Só que não é aula de ideias. É aula de presença.
E Mateus vai martelando: “Eis que!”
Eis que Jesus é transfigurado. A glória que estava velada na carne aparece.
Eis que Moisés e Elias surgem conversando com Ele. O passado não está morto. A história de Deus não se perdeu. A Lei e os Profetas não são uma coleção de moralismo. Eles têm endereço: Jesus.
Eis que uma nuvem os envolve. O claro fica turvo. A fé entra no território do mistério. Deus não vira “explicação”. Deus continua sendo Deus.
Eis que a voz do Pai: “Este é o meu Filho amado… ouvi-o.” A ordem não é “entendam tudo”. É “ouçam-no”. Porque a fé vem pelo ouvir.
E aí acontece a parte que nós, às vezes, deixamos passar: os discípulos caem com medo. E Jesus não faz discurso. Ele faz o que o Evangelho sempre faz primeiro: Ele se aproxima. Ele toca. Ele fala.
Como quem toca uma criança assustada. Como quem diz: “Eu estou aqui. Eu não vou te largar”.
“Levantem-se. Não tenham medo.”
Isso é muito mais do que uma cena bonita. Mateus abre o texto com um detalhe que não é detalhe: “Seis dias depois…” Seis dias depois do quê? Da primeira pregação da cruz, quando Jesus fala da sua paixão, do seu sofrimento, do caminho que parece derrota. Ou seja, a Transfiguração não é um desvio para evitar o Calvário. Ela é a confirmação de que o Calvário é o caminho do Filho amado. Quando Jesus for traído, abandonado, julgado, condenado e pendurado como maldito, os discípulos precisam saber: ali também está o Filho amado. Ali também está Deus agindo. Ali também está glória, só que escondida sob sangue e vergonha.
E aqui está o ponto para nós, no Brasil de hoje, com tanta ansiedade e ruído: as Escrituras não combatem nosso medo com “faça mais, controle-se, seja forte”. Elas combatem o medo com uma promessa encarnada: Jesus se aproxima, toca e fala. Ele não nos chama para entender o mistério inteiro. Ele nos chama para ouvir o Filho.
Quando nós ficamos presos em Pedro, rindo do constrangimento dele ou só fazendo psicologia do personagem, nós perdemos o centro do texto. A Transfiguração não é sobre o quanto Pedro é atrapalhado. É sobre quem Jesus é. E, quando Jesus é visto como Ele é, tudo o mais muda de lugar: o sofrimento ganha contexto, a morte perde o último argumento, e este mundo deixa de ser um acaso sem dono. Vira campo santo. Campo de Deus. Lugar onde Cristo anda, fala, salva, e um dia vai recriar tudo.
Oração ?
Senhor Jesus, Filho amado do Pai, quando nosso coração cai no chão de medo, aproxima-te de nós com tua misericórdia. Toca-nos pela tua Palavra, levanta-nos pelo teu perdão, firma-nos no teu amor. Ensina-nos a ouvir-te acima das vozes que nos acusam, nos apressam e nos assustam. E conduz-nos pelo caminho da cruz com confiança, até a alegria da ressurreição. Amém.
Desafio do dia ?
Hoje, escolha uma frase simples para repetir quando bater o medo: “Jesus se aproxima. Jesus me toca. Jesus fala comigo.”
E faça um gesto bem concreto: desligue o barulho por 10 minutos, leia Mateus 17:1-9 em voz alta e sublinhe no papel ou na mente três “eis que”. Depois, viva o resto do dia procurando um “eis que” pequeno: um sinal de que Cristo está perto, mesmo quando a glória parece escondida.