Mais que mito: a Majestade que sangra

A glória do Tabor e a “zombaria” do Calvário apontam para o mesmo Cristo ✝️✨?

Pedro escreve como quem está fechando a vida e entregando a fé para a próxima geração. E ele sabe qual é o problema: depois que as testemunhas morrem, o mundo vai dizer que tudo não passou de história bonita, de “conto religioso”, de mito bem contado. Então Pedro vai direto ao ponto: “Nós não seguimos fábulas engenhosamente inventadas… nós fomos testemunhas oculares da sua majestade” (2Pe 1:16). Ele está dizendo: eu não estou vendendo espiritualidade, eu estou dando depoimento.

E repare como ele insiste nisso. Não é “eu senti”. É “nós vimos” e “nós ouvimos” (2Pe 1:16,18). Não é relato solitário de alguém iluminado no interior. É memória pública, compartilhada, passível de confronto. Pedro está puxando o leitor para fora do mundo das opiniões e colocando diante de um fato: no monte, houve glória. Houve voz. Houve testemunho do Pai: “Este é o meu Filho amado”.

Só que aí vem o choque que segura a Epifania e já empurra para a Quaresma: essa majestade aparece de um jeito no Tabor e parece outra coisa no Calvário. No monte, luz. Na paixão, zombaria. No monte, honra. Na cruz, a túnica púrpura usada para humilhar, a coroa de espinhos, o “cetro” de cana, o Rei tratado como piada. É como se o mundo dissesse: “Tá vendo? Majestade? Nada. Era só ilusão.”

E Pedro, com o rosto marcado pela própria vergonha, responde: não. A majestade de Jesus não foi desmentida na cruz. Ela foi revelada do jeito de Deus. A glória não some, ela se esconde sob o sofrimento. O mesmo Cristo que brilhou no monte é o Cristo que sangra no madeiro. E é ali, justamente ali, que o amor de Deus chega no fundo do poço humano.

E aí entra o ponto mais pastoral desse texto: seus ouvintes não estavam no monte. Você e eu também não. Então Pedro amarra as duas coisas que Deus nos dá para ter certeza: testemunho apostólico e Palavra profética confirmada (2Pe 1:19). Em outras palavras: não é “confie na sua impressão”. É “confie na Palavra que Deus colocou na boca dos profetas e apóstolos, e selou na ressurreição de Cristo”. A fé cristã não é fruto de imaginação, nem de vontade, nem de carisma. É dom criado pela Palavra.

Por isso Pedro diz que a Escritura é como lâmpada em lugar escuro, até clarear o dia (2Pe 1:19). O mundo é escuro. Nossa consciência é escura. Nossas narrativas internas são um laboratório de autojustificação. A gente inventa mitos pessoais: “eu não sou tão ruim”, “Deus entende”, “eu mereço”, “eu não preciso de cruz, só de um empurrão”. E Pedro quebra isso: nenhuma profecia vem de interpretação particular, porque homens falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo (2Pe 1:20-21). A Palavra não nasce do nosso coração. Ela vem de fora, como chuva. Ela nos julga e nos salva.

E aqui está a aplicação que dá chão: quando a vida parece desmentir Deus, quando a cruz parece zombaria, quando você se sente um fracasso, quando a culpa grita, quando a fé parece pequena… você não se apoia no que você consegue produzir. Você se apoia no que Deus disse. E Deus disse Cristo. Deus disse perdão. Deus disse “Filho amado”, e esse Filho amado foi até o fim por você.

Oração ?
Senhor Deus, Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, guarda-nos de seguir histórias inventadas por nós mesmos. Firma-nos no testemunho dos apóstolos e na tua Palavra profética. Quando a cruz parecer fraqueza e nossa vida parecer desmentido, dá-nos olhos para ver a tua glória escondida no sofrimento do teu Filho. Sustenta-nos no perdão, fortalece-nos na esperança da ressurreição e mantém-nos ouvindo Jesus acima de todas as outras vozes. Em nome de Jesus. Amém.

Desafio do dia ?
Hoje, escolha um medo ou uma culpa que você tem carregado. Escreva em uma linha: “Meu coração está contando esta história: ____”. Depois leia 2 Pedro 1:16-19 e responda com outra linha: “Deus está dizendo uma coisa mais segura: ____”. Guarde essa segunda frase e repita ao longo do dia como quem acende uma lâmpada no escuro.

 
 
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